Carta de um homem temente a
Deus
Não posso
mais ficar calado. Alguém tem que dizer a vocês, que pilotam
aviões, como nós estamos cansados de ouvir vocês falarem
constantemente de aviação, de como é maravilhoso voar e por que é
que nós não saímos por aí um domingo com vocês, para dar uma
voltinha e ver como é.
Alguém tem que dizer a vocês que a resposta é
não, não iremos no domingo nem em outro dia qualquer, não subiremos
com vocês nesses perigosos teco-tecos. A resposta, pelo que nos
toca, é que o mundo seria muito melhor se os irmão Wright tivessem
vendido os seus planadores ao ferro-velho e se esquecido dessa
mania de voar.
Um pouco ainda se tolera - afinal de contas,
quem é que não desculpa um principiante entusiasmado? Mas esse
fanatismo cotidiano e missionário de vocês está indo longe demais.
Esse é bem o termo: missionário. Vocês parecem pensar que há algo
de sagrado em andar pelos ares, mas nenhum de vocês se dá conta de
como tudo isso parece infantil aos nossos olhos, aos olhos de quem
tem algum sentimento de responsabilidade para com as nossas
famílias e os nossos semelhantes.
Eu não estaria escrevendo isto se a situação
estivesse melhorando. Mas está ficando cada vez pior. Trabalho numa
fábrica de sabão, num emprego seguro, pertenço a um bom sindicato e
tenho direito a uma boa aposentadoria, Os homens com quem trabalho
eram gente responsável, mas, agora, dos seis que trabalhávamos na
Tina Número Três, cinco foram tomados dessa loucura de voar. Sou o
único sujeito normal que resta. Paul Weaver e Jerry Marcus largaram
o emprego há uma semana, largaram-no ao mesmo tempo, para entrar
num negócio de publicidade em aviões.
Falei com eles, argumentei com eles,
mostrei-lhes os fatos financeiros da vida ... cheque certo a cada
fim de mês, aposentadoria, sindicato ... mas era como se estivesse
falando para as paredes. Sabiam que iam perder dinheiro ( ... a
princípio - disseram - Até não terem mais um tostão - retruquei).
Mas gostavam tanto da idéia de voar, que achavam que compensava
largar a fábrica ... depois de quinze anos!
A única explicação que consegui tirar deles
foi que desejavam voar e uma expressão estranha, como se eu não
pudesse entender por quê.
E não entendo mesmo. Tínhamos tudo em comum,
éramos ótimos amigos, até essa mania de aviação surgir - um "clube
de vôo" ou coisa parecida, que pegou como lepra no pessoal lá da
fábrica. Paul e Jerry largaram o clube de boliche no mesmo dia em
que entraram para o "clube de vôo". Nunca mais voltaram e nem
espero que voltem.
Tirei uma hora, ontem, no meio da chuva, para
ir até ao gramadinho mixuruca a que eles chamam aeroporto e falar
com o sujeito que dirige o "clube de vôo". Queria que ele soubesse
que está destruindo lares e empregos e que, se acaso tem algum
senso de responsabilidade, o melhor que tem a fazer é procurar
outra freguesia. Foi onde me ocorreu a palavra "missionário", só
que não no bom sentido. Missionário do diabo, isso sim.
Ele estava dentro de um galpão, mexendo num
dos aviões.
- Talvez o senhor não saiba o que está fazendo
- disse-lhe eu -, mas, desde que o senhor chegou a esta cidade e
fundou o seu "clube de vôo", mudou completamente a vida de muita
gente.
Por um momento acho que ele não percebeu a
minha raiva, porque respondeu: - Eu só trouxe a idéia. Eles viram
por si mesmos o que é voar - quase como se estivesse orgulhoso de
ter arruinado tantas vidas.
Parecia ter uns quarenta nos, mas aposto que é
mais velho, e não parou de trabalhar para falar comigo. O avião em
que ele estava mexendo era feito de pano, pano bem fino, pintado
para parecer de metal.
- O senhor dirige um clube - perguntei,
cortante -, ou uma espécie de igreja? Tem uma porção de gente
esperando pelo domingo, aqui, como nunca esperaram para ir à
igreja. Tem gente falando em "estar perto de Deus", que nunca na
sua vida disse a palavra "Deus" enquanto os conheci e olhe que
conheço a maioria deles há muitos anos.
Por fim ele pareceu compreender que eu não
estava satisfeito com ele, que eu achava melhor ele dar o
fora.
- Se o senhor quiser, eu lhe explico - disse
ele. Mal ouvia o que ele falava. Meteu-se debaixo do painel do
teco-teco e começou a tirar um dos mostradores. - Alguns dos novos
alunos ficam entusiasmados. Levam um bocado de tempo para não dizer
em voz alta o que estão pensando. Mas têm razão, claro. E o senhor
também tem. É como uma religião, voar. - Endireitou-se um momento e
procurou, na caixa de ferramentas, outra chave de fenda, com um
cabo menor, e sorriu para mim, um sorriso confiante e irritante,
que dizia abertamente que não iria embora só pelo fato de pessoas
responsáveis lhe estarem pedindo. - Acho que isso faz de mim um
missionário - disse.
- Basta - falei. - Já estou farto de ouvir
essa história de voar-me-aproxima-de-Deus. Por acaso o senhor já
viu Deus no seu trono? Já viu anjos voando em volta do seu avião? -
Fiz-lhe essas perguntas para chocá-lo, para tirá-lo do seu
convencimento.
- Não - respondeu ele. - Nunca vi Deus no Seu
trono, nem anjos de asas brancas. Nem nunca conheci pilotos que os
tivessem visto. - Estava de novo debaixo do painel. - Um dia,
quando o senhor tiver tempo, meu amigo, posso lhe explicar por que
as pessoas falam em Deus quando pilotam aviões.
Eu já lhe tinha dado corda suficiente para se
enforcar e dali a pouco ele estaria dizendo - ... bem ... ah ... -
gaguejando, provando que era muito melhor ele trabalhar numa
fábrica de sabão do que estar dando uma de missionário.
- Pode falar agora mesmo - retruquei. - Sou
todo ouvidos. - Não me dei ao trabalho de lhe dizer que sabia mais
sobre Deus e a Bíblia do que ele ficaria sabendo em mil anos, com
os seus aviõezinhos. Sentia um pouco de pena dele, que não sabia
com quem estava falando. Mas ele próprio tinha provocado aquilo,
com a ridícula história do "clube de vôo".
- Ok - disse ele. - Vamos tirar um minuto para
definir aquilo de que estamos falando. Em vez de dizer "Deus", por
exemplo, vamos dizer "céu". O céu não é Deus mas, para as pessoas
que gostam de voar, o céu pode ser um símbolo de Deus e, pensando
bem, até que um bom símbolo.
- Quando a gente está pilotando um avião,
tem-se muita consciência do céu. O céu está sempre lá em cima ...
não pode ser enterrado, transladado, acorrentado, arrasado. O céu
existe, apenas, queiramos nós ou não, olhemos ou não para ele,
amemo-lo ou odiemo-lo. Existe; quieto, grande, presente. Talvez o
senhor não entenda, o céu é uma coisa muito misteriosa. Está sempre
movendo, mas nunca desaparece. Não liga para nada que seja
diferente dele. - Tirou o mostrador, mas continuou a falar, sem
pressa.
- O céu sempre existiu, sempre existirá. O céu
não entende mal, não fica ofendido, não exige que façamos nada em
especial, em nenhuma altura. Não é um bom símbolo de Deus?
Era como se ele estivesse falando consigo
mesmo, enquanto mexia no mostrador, lenta e cuidadosamente.
- É um símbolo muito fraco - falei -, porque
Deus exige ...
- Um momento - disse ele, como se estivesse
quase rindo de mim. - Deus não exige nada desde que não Lhe peçamos
nada. Mas, quando começamos a querer saber sobre Ele, as exigências
começam, não? O mesmo acontece com o céu. O céu nada exige de nós
até que nós começamos a querer saber acerca dele, até querermos
voar. Aí, ele exige muito de nós e dita leis que temos de
obedecer.
- Alguém disse, certa vez, que a religião é um
modo de descobrir o que é verdadeiro, e a definição não me parece
má. A religião do piloto é voar ... voar é a sua maneira de
descobrir a verdade a respeito do céu. E ele tem de obedecer a
essas leis. Não sei como o senhor chama as leis da sua religião,
mas as leis da nossa são chamadas "aerodinâmicas". É só segui-las,
que a gente voa. Se não as seguirmos, não adianta empregar palavras
difíceis ou frases sonoras ... nunca se sairá do chão.
Agora é que eu o pegava. - E que me diz da fé?
Um homem tem que ter fé ...
- Não interessa. A única coisa que interessa é
seguir as leis. Sim, é preciso ter fé suficiente para tentar
segui-las, mas não acho que "fé" seja a palavra indicada. "Desejo"
é bem melhor. É preciso querer conhecer o céu o bastante para
experimentar as leis da aerodinâmica, para ver se elas funcionam.
Mas o que interessa é seguir essas leis, crer ou não crer
nelas.
- Há uma lei do céu, por exemplo, que diz que,
se você rolar com este avião através do vendo a quarenta e cinco
milhas por hora, com a cauda abaixada e o peso indicado, ele voará.
Vai se erguer do solo e começar a se mover rumo ao céu. Há muitas
outras leis a partir daí, mas essa é uma lei básica. Não é preciso
crer nela. É só preciso experimentá-la, pegar o avião a quarenta e
cinco milhas horárias e ver com os próprios olhos. Pode-se fazer a
experiência vezes sem conta, que sempre funciona. As leis não se
importam de que se acredite ou não nelas. Apenas funcionam,
sempre.
- A gente não vai longe baseado na fé, mas
vai-se aonde se quiser baseado no conhecimento, no entendimento. Se
o senhor não entender a lei vai desobedecê-la e, quando se
desobedece às leis da aerodinâmica, perde-se o céu muito depressa,
eu lhe garanto.
Saiu de sob o painel e sorriu, como se tivesse
um exemplo especial em mente. Mas não me disse qual era.
- Desobedecer a essas leis, para um piloto,
seria a mesma coisa que "pecar", que é "desobedecer à Lei de Deus".
Mas, para mim, os seus pecados são algo vagamente proibido, que a
pessoa não deve fazer por razões que a pessoa não entende bem. Na
aviação, não há pecados. Não há nada vago na cabeça de um
piloto.
- Se a gente desobedece às leis da
aerodinâmica, se se tenta manter um ângulo de ataque de dezessete
graus numa asa que estola a quinze graus, a gente se afasta de Deus
a alta velocidade. Se a gente não se arrepende e ficam em harmonia
com a aerodinâmica, terá de pagar algumas penalidades - como uma
conta enorme de reparos no seu avião - antes de poder voltar ao
céu. Na aviação, a gente só tem liberdade quando obedece às leis do
céu. Se a pessoa não quer obedecê-las, ficará presa ao chão pelo
resto da sua vida. E isso, para um piloto, é o que chamamos de
"inferno".
As falhas na "religião" do nosso homem eram
suficientes para deixar passar um caminhão. - Tudo o que o senhor
fez - observei - foi utilizar palavras da nossa igreja e
substituí-las por termos de aviação!
- Exatamente. O símbolo do céu não é cem por
cento perfeito, mas é muito mais fácil de compreender do que muitas
interpretações da Bíblia. Quando um piloto despenca do alto de um
looping, ninguém diz que foi por vontade do céu que isso aconteceu.
A coisa nada tem de misteriosa. O sujeito desobedeceu às leis do
vôo, tentando um ângulo de ataque demasiado alto para o peso que
ele tinha nas asas, e por isso despencou. Pecou, poder-se-ia dizer,
mas nós não consideramos isso como um pecado, não delapidamos por
isso. Foi apenas uma besteira, que mostra que ele tinha muito ainda
a aprender sobre o céu.
- Quando o piloto desce, não ergue o punho
contra o céu ... fica furioso é consigo mesmo, por não ter
obedecido às regras. Não pede favores ao céu, não lhe queima
incenso, sobe de novo e corrige o seu erro, procura fazer a coisa
bem. Talvez fosse melhor um pouco mais de velocidade, ao começar os
loopings.
O seu perdão só vem depois que ele corrige o
seu erro. O seu perdão está no fato de ele estar agora em harmonia
com o céu e os seus loopings serem perfeitos e bonitos. Isso, para
um piloto, é o "paraíso" ... estar em harmonia com o céu, conhecer
as leis e obedecê-las.
Pegou num outro mostrador e rastejou de volta
ao seu avião.
- Alguém que não conheça as leis do céu dirá
que é um milagre um avião tão pesado se erguer magicamente do chão,
sem cordas ou arames que o icem, Mas só é um milagre porque eles
nada sabem a respeito do céu. O piloto não acha que seja um
milagre.
- E o piloto comum, ao ver um planador ganhar
altura sem precisar de motor, não diz: - Olha um milagre! - Ele
sabe que o pil oto do planador estudou o céu com muito cuidado,
antes de pôr o seu estudo em prática.
- O senhor provavelmente não concorda, mas nós
não adoramos o céu como sendo uma coisa sobrenatural. Não achamos
que precisamos de ídolos nem de sacrifícios humanos. A única coisa
que achamos necessária é entendermos o céu, é sabermos que as leis
existem e como se aplicam a nós e como podemos melhorar em harmonia
com elas, de modo a conquistarmos a nossa liberdade. É daí advém
essa alegria que faz com que os novos pilotos digam que se sentem
perto de Deus.
- Quando um aluno começa a entender as leis e
vê que elas funcionam para ele como para qualquer outro piloto, ele
acha divertido e fica ansioso por vir até o aeroporto, da mesma
maneira, talvez, que os padres gostariam que os fiéis sentissem
desejo de ir à igreja ... para aprender algo de novo, algo que traz
alegria, liberdade e libertação das cadeias que nos prendem à
terra. Em suma, o piloto, ao estudar o céu, esta aprendendo e
sente-se feliz, porque para ele todo dia é domingo. Não é assim que
um fiel se deveria sentir?
Por fim eu o pegara. - Quer dizer que a sua
"religião" diz que os seus pilotos não são míseros pecadores,
condenados ao inferno e à danação, ao fogo e ao enxofre?
Ele sorriu de novo, aquele mesmo sorriso
irritante que nem sequer me dava o consolo de pensar que ele me
odiava.
Bem, só se eles despencarem de um
looping!
Tinha terminado de mexer no avião e empurrou-o
do galpão para o sol. As nuvens estavam se afastando.
- Acho que o senhor é um pagão - disse eu, com
todo o veneno que consegui reunir, e esperei que um raio o
atingisse, só para provar que ele era mesmo pagão.
- Sabe de uma coisa? - replicou ele. - Tenho
de verificar o indicador de curvas deste avião. Por que não vem
comigo e damos uma voltinha sobre o campo, para o senhor poder
decidir se somos pagãos ou filhos de Deus?
Percebi logo a sua intenção ... atirar-me lá
do alto ou então acertar numa bolsa de ar e nos matar a ambos, tal
o seu ódio por mim. - Nada disso. Eu que não entro nesse caixão! O
senhor é um pagão e ainda há de purgar nas chamas do inferno!
A resposta dele foi mais para si mesmo do que
para mim ... tão baixa, que mal pude ouvi-la.
- Nunca, desde que obedeça às leis.
Subiu para o aviãozinho de pano e ligou o
motor. - Tem certeza de que não quer vir? - gritou.
Não me dignei responder e ele levantou vôo
sozinho.
Escutem-me, portanto, vocês que voam e vivem
falando em "conhecimento do céu" e nas "leis da aerodinâmica". Se o
céu é Deus, é também mistério e é cólera e os atacará com
relâmpagos e afeições, fazendo-os sofrer pela blasfêmia. Desçam do
céu, recuperem o juízo e não peçam mais a nossa companhia nas
tardes de domingo.
O domingo é um dia de se venerar o que está no
alto, de elevar os corações e é bom que não se esqueçam
disso.
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